terça-feira, 3 de fevereiro de 2009

A Voz do Povo

A SIC Online permite agora fazer comentários às noticias. Está a decorrer uma espécie de inquérito aos cidadãos sobre "O que faria se você mandasse?". Após ler alguns dos comentários, não resisti:

Rident Castigat Mores!

Mais calinadas aqui.

sábado, 24 de janeiro de 2009

"Dois Mil e Nove"

"Manuel entrou no átrio do edifício. O ar estava impregnado de pó derivado das obras no piso inferior, uma serra de disco gritava na distância, cheirava a aço e ferro de soldar. Na máquina de multibanco o ecran piscava com publicidade de cores garridas: "A Certificação Energética é Obrigatória"".

Podia ser um excerto do primeiro capítulo do "Mil Novecentos e Oitenta e Quatro" de Orwell, mas o livro é o novo regime de avaliação energética (RCCTE), que entrou em vigor em 1 de Janeiro de 2009.
Para o leigo, basta referir que todas as habitações compradas desde o início do ano são obrigadas por lei a possuírem um Certificado Energético, que explicita a eficiência energética do imóvel.

Esta classificação - semelhante à que conhecemos nos electrodomésticos - indica uma qualificação geral que depende de parâmetros, tais como o isolamento térmico, sistemas de aquecimento, arrefecimento, águas quentes e fontes de energia renovável do imóvel. As classes vão desde A+ a G (a pior).

Enquanto estudante de engenharia, esta ideia de classificar os imóveis parece-me muito feliz, dado que consegue transmitir de uma maneira simples mas absoluta a qualidade de uma casa em termos de muitos parâmetros que o leigo normalmente desconhece e que têm implicações gravíssimas a longo prazo (tais como os custos para aquecimento e arrefecimento ao longo do ano).
Mas não há bela sem senão, e a perniciosidade da lei faz-se aflorar nos exemplos mais caricatos e inesperados. No caso em questão, o "imóvel" que o leitor pode observar na imagem é uma ruína, construída em 1907 e inserida numa propriedade agrícola, do qual fui proprietário até à uns dias. Qual o meu espanto quando decidi vender o terreno, fui informado pelo notário que teria de possuir um certificado energético para os "imóveis referenciados em caderneta urbana". Tentei explicar à senhora que os ditos imóveis eram ruínas, que não tinham tecto, água canalizada ou electricidade, pelo que não são possíveis de avaliar pelo RCCTE...

Resumindo e concluindo, duas semanas depois já tinha contratado um auditor energético (um dos dois únicos que existem no distrito inteiro!), que se deslocou à ruína, confirmou efectivamente que se tratava duma Classe G (no shit, Sherlock!), e em seguida fui informado que teria que pagar, alem dos honorários do perito, uma simbólica taxa de 51€ à ADENE para receber o meu Certificado (sem o qual a venda não se poderia realizar)...

Ah! Mas era dinheiro que queriam? Porque é que não disseram logo!

segunda-feira, 19 de janeiro de 2009

Este país não é para velhas

Vi as entrevistas aos dois principais candidatos a primeiro-ministro para as próximas legislativas. Sócrates disse que "vai ajudar todas as empresas que puder" e Ferreira Leite que "não tem dados suficientes para dizer, desde já, quais os investimentos públicos que cancelaria".

Neste país de palermas crentes, os valores de Ferreira Leite não a deixam ter a mínima hipótese contra Sócrates mais as suas afirmações irresponsáveis e inconsequentes.

É que a senhora não mente.

segunda-feira, 12 de janeiro de 2009

Aquele Abraço


Muitos (se não todos) dos nossos leitores masculinos já se depararam de certeza com esta situação: alguém ao despedir-se - em pessoa ou ao telemóvel - dizer "aquele abraço!".

Esta expressão sempre me intrigou. Qual será o abraço a que o meu interlocutor se estará a referir? O abraço forte do meu avô? Do meu pai? De um amigo que já não vejo há muito tempo? Ou será que existe um catálogo de abraços, tipo La Redoute, com todos os tipos de abraços, força, feitios, texturas?

"Olhe queria o XL em caxemira com biceps musculados e duas pancadinhas nas costas" "desculpe, o abraço que escolheu encontra-se esgotado, mas temos o mesmo em M com uma pancadinha apenas"... surreal!

Estas "irrealidades do quotidiano" que por vezes se enraizam no dia a dia sempre me fascinaram. Será que as pessoas do "aquele abraço" já pensaram no que estão a dizer, ou simplesmente apanharam o hábito de ouvido, como uma doença contagiosa propagando-se na idiomática portuguesa?

É infeliz, e não é inteligente. Para a próxima, vou convidar a pessoa a por o dito abraço n'"aquele sítio"!

segunda-feira, 29 de dezembro de 2008

Hoje há Palhaços!

Estamos em época Natalícia, altura de amor, paz e de relembrar tradições seculares como a caridade, o altruísmo e claro, o consumismo desenfreado e indiscriminado.

Sempre que vejo as iluminações de Natal nas ruas lembro-me sempre dos meus tempos de miudo, e claro, os tradicionais cartazes que anunciam os Circos, ora com animais ferozes, com três pistas ou os típicos palhaços.

Este ano não foi excepção, e - claro - no fim de Novembro já estava a espera daqueles cartazes pendurados nos candeeiros a anunciar as efemérides.

Qual não foi a minha surpresa quando de uma noite para a outra Lisboa ficou pejada desses parasitas de plástico, afixados em tudo quanto era candeeiro, mas no entanto não eram do Chen ou do Cardinalli, mas sim dum novo circo que não conhecia: o MMS.

Vejo o aparecimento de novos partidos políticos sempre com bons olhos, e acredito que são fonte de novas ideias, mas a campanha do MMS parece-me despropositada no tempo e no método.

No tempo porque Novembro e Dezembro são meses onde a cabeça das pessoas anda noutro lado, querem é saber de terminar o mês, receber o seu subsidio de férias ou fazer os fechos de contas das empresas, passar dias a correr nas compras e de uma forma geral andam com as ideias atoladas no season spirit, a última coisa que querem saber é de Mérito ou de Sociedade.

No método porque é foleiro. Cartazezinhos de plástico, enfumados ao vento, lembram-me sempre o PCP, que tantas vezes fazia o mesmo tipo de publicidades, e - como é o tema desta posta - o meio de comunicação privilegiado dos circos.

O MMS começou mal, e não é com acções destas que vai atrair simpatizantes. Ganhem mas é juízo e seriedade, e deixem-se de palhaçadas.

sábado, 18 de outubro de 2008

Nojo


Sento-me a escrever estas linhas e não posso deixar de sentir nojo. Uma repulsa visceral que me percorre o corpo e aflora na minha mente imagens desconexas e desconcertantes.

O motivo por detrás deste estado é simples: conheci pela primeira vez alguém que não acredita que o Holocausto aconteceu.

Foi para mim um dos maiores choques intelectuais que alguma vez tive. A argumentação deturpada que me apresentou, a afirmação dogmática e peremptória, uma certeza consolidada naquela mente, que nenhuma visita a Dachau ou Auschwitz poderão alguma vez mudar.

Para mim não era novidade que há muita gente por aí que defende que 6 milhões de judeus, ciganos, deficientes mentais e homossexuais nunca foram executados nos campos de concentração, a começar pelo Presidente do Irão. Mas outra coisa é o próximo, o conhecido, o colega de trabalho, isso sim é a materialização do choque, e o fundo de todo o meu recente desconcerto.

Não vos vou expor os argumentos (muitos) e as teorias que o individuo me apresentou durante as três longas horas que conversámos. Suspeitava das ideias dele, mas arrastado por uma curiosidade mórbida, fui escutando a sua verborreia ideológica e anti-semítica. Queria perceber o que poderia estar por detrás de tais ideias, vindas de alguem com educação universitária (o que me leva a concordar que o canudo já não é sinónimo de nada). Errei. Não aprendi nada de novo.

Terminei a telefonar ao Mega pouco depois de nos despedirmos, pelas sete da manhã, e, como quem vê pela primeira vez ao vivo num Zoo um animal de uma revista da National Geographic, exclamei: “Sabes, acabei de conhecer um daqueles gajos que não acredita no Holocausto!”.